Como foi o 25 de abril? Aprender História com ferramentas jornalísticas

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Ana Cátia Ferreira e Pedro Eduardo Ribeiro

“Onde estavas no 25 de abril?” é uma pergunta comum em conversas entre mais velhos. A introdução do tema em aulas de História pode passar por convidar os alunos a recolher informação junto dos avós ou vizinhos mais velhos. Também o jornalismo infantil e o uso educativo de ferramentas digitais podem ajudar a mediar a relação com o passado.

Há crianças que consideram História uma matéria aborrecida e que não compreendem por que se recua tanto décadas e séculos. Outras há que se deslumbram com épocas antigas e são levadas pela imaginação do “há muito tempo”.

Contudo, quando nas plataformas digitais a informação flui de forma ligeira, rápida e descartável, importa mesmo aprender História: como é que o passado interfere com o nosso presente, carrega consigo conquistas e derrotas e ajuda a moldar as nossas identidades. O jornalismo promove esta aprendizagem. Em particular, o jornalismo para crianças é um recurso educativo valioso que pode ser utilizado em aula para ajudar na construção da memória.

“A história no tempo dos teus avós”

Neste artigo, analisamos como o jornalismo infantil atuou como agente de educação para a compreensão de acontecimentos históricos de Portugal.

Como o fizemos? Analisámos a capa e três artigos sobre o 25 de Abril de 1974, publicados na revista Visão Júnior, em abril de 2024, quando se celebraram os 50 anos da Revolução dos Cravos.

Capa da revista Visão Júnior de 2024.

Nas páginas dedicadas ao tema, a combinação do texto com as imagens, cores e outros recursos comunicativos oferece uma visão mais simples de entender, mais apelativa sobre o passado para as crianças. Além disso, relacionou-se o conhecimento histórico com o quotidiano que lhes fosse familiar: o cravo e a cor vermelha; as dicotomias como passado e presente, antigo e novo, pior e melhor, opressão e liberdade, ditadura e democracia.

A aproximação pela proximidade familiar também se expressa no título da capa: “A História no tempo dos teus avós”.

Em “O 25 de Abril visto por mim”, os leitores da revista exprimiram, sobretudo por desenhos e poemas, interpretações contemporâneas da Revolução dos Cravos.

O 25 de abril visto por mim, retirado da Revista Visão Júnior 2024, páginas 28 e 29.

Aprender História no tempo presente

Publicações em papel (livros, revistas, coleções de cadernetas) oferecem envolvimentos, leituras e experiências sensoriais que as distinguem dos ecrãs. O seu valor educativo permanece. Mas as plataformas digitais abrem-se a outras oportunidades, podem proporcionar novas formas de ensinar e de cultivar a memória. O digital acrescenta novas formas de participação e descoberta. Os trabalhos jornalísticos podem combinar, num único recurso, texto, vídeo, som e interatividade. E isso é especialmente importante para o conhecimento histórico.

Dois exemplos do número especial da Visão Júnior:

  • O “Antes” do artigo da Visão Júnior aponta para o passado, quando estar na escola era diferente de hoje. Os leitores foram estimulados a uma viagem pela época, narrada pelo jornalista, na primeira pessoa, que descreve como era a escola antes da revolução. Pode ser acompanhada de uma pesquisa de outras imagens desse tempo, disponíveis na internet ou solicitadas aos avós, nos seus álbuns de infância;
  • A criança com “orelhas de burro”, na capa, aparece num cenário típico de sala de aula do Estado Novo, disponível para visualização aqui. Esta imagem, agora a cores, foi inspirada do filme (a preto e branco) Aniki Bobó, de Manoel de Oliveira, realizado em 1942. Repara que este excerto revela o ambiente da sala de aula, o castigo por mau comportamento e a turma somente de rapazes.

Nos dias de hoje, será possível aos alunos acederem a uma hiperligação do filme e verem um excerto. Por exemplo, ficarem com uma ideia de como meninos pobres da cidade do Porto inventavam brincadeiras e como isso contrastava com o ambiente da sala de aula. E, se o desejarem, podem depois ver todo o filme, gravarem entrevistas a avós e bisavós e (por que não?) organizar um projeto multimédia com testemunhos ao vivo combinados com músicas.

A possibilidade de participação não tem limites e incentiva explorar materiais de forma lúdica e reflexiva.

Projetos de escola em torno do jornalismo infantil digital podem potenciar a aprendizagem ativa e interdisciplinar e democratizar o acesso ao conhecimento, procurando ultrapassar mais facilmente barreiras geográficas e sociais.

A memória é parte integrante de como se olha o dia a dia e o mundo e trabalhá-la com sentido crítico começa desde a infância.

Nota
A Visão Júnior foi descontinuada em 2025, na sequência da falência da editora Trust in News. Ainda que os arquivos digitais da Visão Júnior não estejam disponíveis neste momento, edições em papel continuam disponíveis na rede de bibliotecas escolares. O seu tratamento de efemérides históricas continua, assim, a poder constituir uma inspiração para esta e outras abordagens.

Referências

Ribeiro, P. E., & Ferreira, A. C. (2025). Cultural memory of historic events and children journalism: A multimodal critical discourse analysis. Observatorio (OBS*), 19(3), 202–223. https://obs.obercom.pt/index.php/obs/article/view/2677

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Sobre os Autores

Ana Cátia Ferreira

Doutora em Ciências da Comunicação - Universidade Fernando Pessoa. ICNOVA.

Tem como linhas de investigação o jornalismo para crianças, sua história, produção e participação infantil, além da literacia para notícias e jornalismo especializado.

Pedro Eduardo Ribeiro

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho

Pedro Eduardo Ribeiro é doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho e é investigador colaborador do CECS.