Eduarda Ferreira
16 de Maio, 2026
Uma atividade formativa – Cartografia de posições: Onde estamos neste debate? – teve como objetivo tornar visíveis diferentes perspetivas de docentes, indo além da dicotomia Permitir vs. Proibir destes recursos digitais nas escolas.
Depois do contexto e da perspetiva do bem-estar educativo, a terceira parte desta ACD online, organizada pela plataforma CriA.On e o CCTIC de Setúbal, procurou cartografar as diferentes perspetivas de docentes através de dinâmicas de grupo.
Cada um dos dez grupos de participantes, reunidos em salas simultâneas, recebeu as seguintes frases com afirmações provocatórias:
- Ensinar a usar é mais eficaz do que proibir;
- A escola não pode competir com o telemóvel;
- O smartphone é uma extensão da identidade dos alunos;
- O problema não é o smartphone, é o tipo de tarefas que propomos;
- A escola ignora o impacto emocional de retirar o telemóvel aos alunos;
- Ensinar a desligar também é educar;
- A escola pede autocontrolo sem nunca o ensinar;
- A escola decide sobre smartphones sem ouvir os alunos;
- A escola reage à tecnologia em vez de a integrar criticamente.
Cada grupo deveria escolher:
- Uma afirmação que gerava consenso;
- Uma afirmação que dividia o grupo;
- Uma afirmação que provocava desconforto.
As escolhas e as suas razões ficaram registadas num formulário online.
A atividade permitiu observar não apenas opiniões sobre o uso de smartphones, mas, e sobretudo, conceções implícitas acerca do papel educativo da escola numa cultura digital. As respostas mostram que o debate não se organiza verdadeiramente em torno da dicotomia permitir versus proibir: ele emerge de diferentes entendimentos sobre o que significa educar num contexto em que o digital faz parte do ambiente quotidiano das/os alunas/os.
Educar sim, mas como?
Ensinar a usar é mais eficaz do que proibir foi a afirmação que gerou mais consenso. A maioria dos grupos justificou a escolha recorrendo a ideias de responsabilidade educativa, preparação para a vida real, desenvolvimento da autonomia e função formativa da escola.
Isto indica uma posição não proibicionista e o reconhecimento de que a escola tem um papel na formação das crianças e jovens para o uso do digital. No entanto, pode tratar-se de um consenso de princípio e não de prática: nas justificações aparecem valores pedagógicos, mas raramente estratégias concretas para ensinar autorregulação. Assim, ao acordo sobre a finalidade educativa, pode não corresponder a operacionalização no quotidiano da sala de aula.
Que problema estamos a resolver?
As afirmações que dividiram os grupos distribuíram-se por vários temas: impacto emocional da retirada do telemóvel; qualidade das tarefas propostas; integração pedagógica da tecnologia; escuta dos alunos; relação identitária com o dispositivo.
Os/As docentes não discordam tanto sobre regras quanto sobre a própria definição do problema educativo. Para alguns, o telemóvel é sobretudo uma fonte de distração que compromete a atenção; para outros, o problema reside em metodologias pouco significativas; outros ainda interpretam a questão como relacional ou cultural, ligada à experiência subjetiva das/os crianças e jovens e ao alinhamento da escola com a sociedade contemporânea. O debate, portanto, não é tecnológico, mas pedagógico: discute-se qual é, afinal, o problema educativo a enfrentar.
Identidade docente em causa
O maior desconforto surgiu nas seguintes afirmações:
- A escola pede autocontrolo sem nunca o ensinar;
- O smartphone é uma extensão da identidade dos alunos;
- A escola reage à tecnologia em vez de a integrar criticamente.
As justificações indicam que o mal-estar surge quando o papel tradicional do/a professor/a está implicitamente em causa. As afirmações são desconfortáveis porque sugerem que a escola pode exigir competências que não ensina explicitamente, que a/o aluna/o pode ter uma relação legítima com o dispositivo e que a centralidade cultural da escola pode estar em transformação. Assim, o debate sobre smartphones revela-se também um debate sobre autoridade pedagógica.
Um debate sobre educar
A leitura global das respostas permite identificar três conceções de escola que coexistem:
- espaço de proteção das condições de aprendizagem, onde o problema principal é a distração;
- espaço de treino, centrada no desenvolvimento progressivo da autorregulação;
- espaço cultural, cuja missão é interpretar criticamente o mundo digital vivido pelos alunos.
Sem uma pertença rígida a apenas uma destas posições, há alternância entre elas conforme a situação. A dificuldade em definir regras comuns resulta, precisamente, da tentativa de aplicar uma política única a conceções educativas diferentes.
Em síntese, a discussão sobre smartphones não é essencialmente disciplinar nem tecnológica. Trata-se de um debate sobre o significado atual de educar, sobre competências que são responsabilidade da escola e sobre o lugar da autoridade docente numa cultura digital. A dificuldade em chegar a orientações claras não decorre da ausência de reflexão, mas do facto de ainda não existir um consenso explícito acerca da função educativa que as regras devem servir.
Da regra ao propósito educativo
A construção de uma política escolar sobre smartphones deve partir das finalidades educativas da escola e não da simples escolha entre permitir ou proibir.
Uma política consistente precisa, antes de mais, de definir que competências quer promover (atenção, autorregulação, responsabilidade, pensamento crítico…), e só depois estabelecer normas para o uso do dispositivo.
Em vez de uma regra única e uniforme, torna-se mais eficaz diferenciar contextos: há momentos em que o smartphone pode ser recurso pedagógico, outros em que deve estar ausente para proteger a concentração, e outros ainda em que o seu uso pode ser regulado, mas permitido. A previsibilidade deve resultar da atividade pedagógica, não da arbitrariedade.
É igualmente essencial que a escola ensine explicitamente as competências que exige. Se se pretende que as crianças e jovens saibam gerir o uso do telemóvel, essa gestão deve ser trabalhada de forma intencional, e não apenas imposta. Além disso, a política deve distinguir claramente entre normas de funcionamento (necessárias para garantir condições de trabalho) e objetivos formativos ligados à literacia digital e à cidadania.
Por fim, as regras ganham legitimidade quando são apresentadas como instrumentos educativos e não apenas como restrições. Uma política eficaz sobre smartphones é, em última análise, uma expressão do projeto educativo da escola: não regula apenas dispositivos, mas estabelece o enquadramento pedagógico em que a educação deve acontecer.
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Sobre a Autora
Eduarda Ferreira
Psicóloga Educacional - CICS.NOVA.
Interesses de investigação: web geoespacial, TIC na educação, inclusão digital, sexualidades e igualdade de género.
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