“Eu gostaria que as pessoas tivessem mais noção do que é uma IA”

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Cristina Ponte, Susana Batista e Estrella Luna

Eu gostaria que as pessoas tivessem mais noção do que é uma IA, de como usar uma inteligência artificial, que as pessoas fossem mais informadas sobre o tema. E que ajudassem os jovens na sua criação de conteúdo, porque eu acho que há muitos jovens que querem fazer algo, mas não conseguem porque não sabem por onde devem começar.

Rui, 16 anos

O Chat GPT é o modelo de Inteligência Artificial Generativa (IA Gen.) mais popular entre adolescentes. Descobriram-no pouco tempo depois de ter surgido, nos finais de 2022, num “passa a palavra” entre colegas e pelas redes sociais Seguiram-se outros, com características diferentes, como o Character IA. Anos passados, jovens como o Rui sentem que (muitos) adultos continuam à margem deste cenário e gostariam que a literacia para a Inteligência Artificial abrangesse mais novos e mais velhos.

Em 2025, 85% das crianças e jovens já usavam ferramentas de IA Gen. em Portugal e em mais atividades do que a média europeia, aponta este relatório nacional da rede EU Kids Online. Mas para quê e como?

Os resultados do inquérito nacional a 2.111 crianças e jovens (9-17 anos) estavam bem acima da média europeia (17 países) nos usos para fins escolares (usados por perto de metade), bem como nos usos para conversar e obter conselhos sobre saúde física, ou para desabafar sobre assuntos que preocupavam (cerca de um quarto), conforme se observa na Figura 1.

Figura 1: Atividades com IA Gen. realizadas no último ano (média europeia EUKO e em Portugal)

QC11 Já usaste IA Gen. durante o ÚLTIMO MÊS….
Base: Total da amostra (N= 2111)

Como poderiam melhorar os usos destas ferramentas?

Os testemunhos de 15 adolescentes (13-17 anos) de vários meios sociais entrevistados para este estudo EU Kids Online apontam em várias direções:

Integração no ensino

Entre as melhorias referidas estão mudanças nos métodos de ensino. Expressa de diferentes modos, a oportunidade de integração na escola abre-se ao desafio que pode significar para o desempenho de professores e de alunos:

“Por exemplo, tenho professoras que estão a tirar cursos para saber como lidar com as IAs e como usá-las a favor delas e acho fixe.” (Maria, 13 anos)

“Acho que o passo seguinte é estar integrado dentro da escola, porque ainda há professores, os professores mais antigos, que têm um método de ensino mais antigo, que são 100% contra a inteligência artificial e não deixam utilizar, mas eu acho que por vezes é uma boa ferramenta.” (Samuel, 17 anos)

Plataformas mais reguladas… e feitas para proteger

Para melhorar a experiência de uso de ferramentas de IA Gen., adolescentes mais velhos referiram que as plataformas deveriam ter uma intervenção sobre conteúdos manipulados e assegurar recursos de denúncia, duas medidas curiosamente previstas no Regulamento Europeu:

“Se algo correr mal também, pedir ajuda à própria inteligência, à tecnologia, naquelas barras de ajuda. Quando temos uma aplicação, entramos num site e não sabemos usar bem aquilo, ou temos alguma dúvida em algo, ou algo deu errado, temos um assistente de ajuda que já vem da tecnologia.” (Ana, 14 anos)

As plataformas também deveriam proporcionar prevenção: criação de alertas, notificações, filtros ou deteção imediata para evitar situações de risco.

“Eu acho que antes de você entrar na inteligência artificial, teria que ter uma série de avisos sobre os riscos de uso. Então falaria que a IA pode aprender com isso, pode falar com outras pessoas e que a IA pode dar informações erradas. Essa parte da informação errada já seria um aviso. Mas eu acho que teria que ter um aviso falando que nem sempre a informação que você passa é confidencial. ” (Luís, 15 anos)

Responsabilização individual… mas nem sempre

O uso responsável para que apontam as campanhas de segurança ficou patente na reflexão sobre “a culpa” quando algo corre mal, sentimento reportado de modo recorrente.

A maioria dos entrevistados atribuiu ao usuário a responsabilidade por algo que lhe causasse dano (ou aos seus pais, se fosse uma criança). Alguns, mais velhos, incluíram também as empresas e refletiram numa base menos determinista:

“Se for num trabalho que correu mal, a culpa é da pessoa, porque ela não verificou se a informação estava certa. Mas, se a informação for vazada, a culpa é da empresa, que não foi suficientemente segura para guardar as informações.” (Isabel, 15 anos)

“Se foi com a aplicação, acho que é questão da empresa, né? A empresa tem que tratar disso, porque foi uma criação deles, e se o Character AI ou qualquer outra aplicação tiver uma reação que supostamente não deveria ter, isso é uma falha do algoritmo deles. Então, eles deveriam ser responsabilizados. Mas agora, se afetou uma pessoa por alguma reação que ele teve, eu não acho que necessariamente seja culpa da empresa, talvez seja culpa dos pais por saber que o filho era daquele jeito, terem permitido ele utilizar uma ferramenta dessas ou participar disso.” (Joana, 17 anos)

Uma sugestão ética e responsabilizante, e que se aplicaria a ‘miúdos e graúdos’ foi apontada por uma das entrevistadas mais novas:

“Sim. Eu acho que o princípio devia ser lei, se usarmos alguma coisa com IAs um selinho, tipo, a dizer, foi feito em parte por IAs.” (Maria, 13 anos)

Contextualizando e combinando resultados estatísticos sobre a amostra nacional com testemunhos, este relatório temático sobre Inteligência Artificial, disponível nos também nos recursos de EU Kids Online Portugal, inclui questões relacionadas com condições de acesso, conhecimentos, competências, atitudes, receios e esperanças.

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Sobre as Autoras

Cristina Ponte

Professora Catedrática - NOVA FCSH. ICNOVA

Tem investigado a relação de crianças e jovens com os media na perspetiva dos seus direitos e contextos familiares em projetos nacionais e europeus.

Susana Batista

Professora Auxiliar - NOVA FCSH. CICS.NOVA

Além de investigar e intervir na educação e formação de professores, tem explorado as competências digitais de jovens, a mediação parental e a cidadania digital.

Estrella Luna

Doutora em Educação com as TIC pela Universidade de Lisboa

Membro da equipa portuguesa da rede EU Kids Online, é especialista no uso dos media e das TIC para o empoderamento dos jovens na participação cidadã e na integração social. É uma das representantes na Aliança Media and Information Literacy da UNESCO e membro do Capítulo da América do Norte e da Europa.