Fernanda Bonacho
25 de Fevereiro, 2026
A tecnologia tem vindo a criar um distanciamento entre as pessoas e esse afastamento só pode ser superado pela proximidade, pelo sentido de comunidade, pelos valores partilhados e preocupações comuns. A imagem de um engarrafamento onde cada condutor está isolado dentro do seu automóvel, apesar de, ao mesmo tempo, estar rodeado por centenas de outros na mesma situação, foi usada para ilustrar essa situação de incomunicabilidade.
A metáfora é de Paul Mihailidis, professor do Emerson College, Boston, na sessão de abertura do VII Congresso do Grupo Informal sobre Literacia Mediática (GILM), recentemente realizado. Um Congresso onde se discutiu a importância desta literacia nos mais novos, mas não só.
A tendência para concentrar o debate público sobre a dependência digital nas crianças, devido ao impacto evidente que esta lhes provoca, acaba por criar uma perceção enviesada do problema.
Armanda Matos e Hugo Simões, da Universidade de Coimbra, mostraram como esse foco exclusivo ignora riscos equivalentes noutras faixas da população. Também Carla Ganito, da Universidade Católica, sublinhou que esses mesmos padrões de exclusão afetam de forma particular as pessoas mais velhas e as mulheres.
Para contrariar a exclusão digital estes grupos (com um papel particular na socialização das crianças mais novas) importam três pilares: políticas públicas, educação e intervenção.
Saber desmontar técnicas e ferramentas
Porque as campanhas de promoção comercial nos media afetam comportamentos, as suas ferramentas e técnicas têm vindo a ser aprendidas e usadas por muitos ativistas para fins não comerciais.
Foi o que realçou Lee Edwards, da London School of Economics, para quem esse conhecimento é uma forma prática de literacia mediática: ao sabermos reconhecer aquelas ferramentas, compreendemos melhor as mensagens, desmontamos os seus mecanismos e, assim, fazemos escolhas de forma verdadeiramente livre.
A necessidade de regulação
Neste Congresso, grandes empresas tecnológicas (Google, TikTok) e a Entidade Reguladora para a Comunicação (ERC) discutiram como se constroem e desconstruem narrativas num ambiente digital saturado de informação, onde cresce a desinformação e a erosão da confiança nos meios de comunicação social.
A importância da prevenção e da monitorização no combate à desinformação foi sublinhada por Telmo Gonçalves, do Conselho Regulador, que também destacou a necessidade de cooperação vinda das indústrias tecnológicas. Integrada no eixo da prevenção, a literacia mediática é “uma aposta, sobretudo em situações muito específicas, como os períodos eleitorais, para promover conteúdos pedagógicos”, sublinhou.
Quando jornalistas enfrentam alunos céticos
Também teve lugar o testemunho vindo de Lie Detectors, uma organização independente de literacia mediática britânica e que mobiliza jornalistas. Sendo a maior do seu género na Europa, tem como propósito contrariar os efeitos corrosivos da desinformação online e da polarização sobre a democracia.
Annemieke Akkermans, a sua responsável, contou no Congresso como as idas de jornalistas a escolas e os seus encontros com os alunos têm vindo a mudar de modo radical ao longo do tempo. No início, era preciso alertar que nem tudo o que viam na internet era verdadeiro. Hoje, sobretudo entre os mais jovens, o cenário inverteu‑se e há muita desconfiança; para muitos, tudo o que veem é fake.
Desinformação em tempos da Inteligência Artificial
Por sua vez, Adeline Hulin, responsável pela área de Literacia Mediática e Competências Digitais da UNESCO, destacou a literacia mediática como um direito fundamental na era digital. Sublinhou a urgência de enfrentar a desinformação e a sofisticação crescente das narrativas produzidas com recurso a inteligência artificial, lembrando que, apesar de muitos países já integrarem a literacia mediática nos currículos, a abordagem continua insuficiente face à velocidade da evolução tecnológica.
Em tempos de crise, a informação pode dividir, mas também pode unir. Pode criar pânico, mas também pode estimular a criatividade e a resiliência. E a escolha aqui resulta, de facto, da forma como nós compreendemos e utilizamos a informação.” (Adeline Hulin)
A sessão final do Congresso reuniu projetos e organizações internacionais (Inclusive and Creative Media Education, Amnistia Internacional, Shout Out UK) e dois jornalistas portugueses, Tiago Carrasco e Vanessa Rodrigues, para discutir a relação entre media, jornalismo e direitos humanos. A importância de estimular o pensamento crítico desde a infância, de promover a participação cívica dos jovens e de aprofundar o conhecimento dos direitos humanos como condição para a sua proteção foram as grandes linhas comuns.
Foram dias intensos de oportunidades de trabalho em rede, com participantes de todo o País e de países de todo o mundo, falantes de língua portuguesa, mas não só. Este VII Congresso do GILM reuniu quase duzentos participantes, entre investigadores, professores, jornalistas, estudantes, parceiros institucionais e representantes de organizações da sociedade civil.
Para o GILM, a mensagem desta VII edição é inequívoca: num espaço público cada vez mais fragmentado, a literacia mediática é uma ferramenta essencial para fortalecer a democracia, promover a coesão social e defender valores universais como a dignidade humana e a paz.
Pode ver os vídeos das sessões plenárias aqui.
Sobre a Autora
Fernanda Bonacho
Professora Coordenadora - Instituto Politécnico de Lisboa. ICNOVA.
As suas áreas de investigação são a literacia mediática, a comunicação e a linguagem, com trabalho e pesquisa realizados junto dos jovens.
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