Eduarda Ferreira
22 de Janeiro, 2026
Mesmo quando estamos offline, continuamos rodeados de tecnologia que influencia as nossas decisões, as nossas relações e a forma como aprendemos e trabalhamos. Por isso, falar de cidadania digital é uma necessidade para qualquer pessoa que use a internet – e hoje isso significa praticamente todos nós.
O que é ser um cidadão no mundo digital?
Ser cidadão significa ter direitos, deveres e participar ativamente na sociedade. No universo digital, esta lógica é a mesma: continuamos a ter direitos que devem ser respeitados e responsabilidades que devemos assumir. Cidadania digital é, portanto, a capacidade de usar a tecnologia de forma responsável, crítica, criativa e segura, contribuindo para que os espaços online sejam mais inclusivos, respeitadores e positivos.
Uma pessoa que exerce plenamente a sua cidadania digital:
- Compreende o impacto da tecnologia no seu dia a dia;
- Sabe como se comportar online;
- Respeita as opiniões e os direitos dos outros;
- Consegue distinguir informação fiável de conteúdos enganadores;
- Protege a sua privacidade e a dos demais;
- Participa ativamente em comunidades digitais de forma construtiva.
E, acima de tudo, é um aprendiz ao longo da vida, porque o mundo digital muda constantemente e obriga-nos a atualizar conhecimentos e atitudes.
Por que precisamos de cidadania digital?
Antes, muitas das nossas atividades, aprender, brincar, trabalhar, conversar, participar na comunidade, aconteciam exclusivamente em ambientes físicos: em casa, na escola, no bairro. Hoje, tudo isto também acontece online. Crianças e jovens comunicam, jogam, aprendem e constroem relações através de plataformas digitais. Adultos fazem compras, estudam, participam em debates e organizam a sua vida através de dispositivos ligados à internet.
No entanto, todas estas oportunidades também trazem riscos: desinformação, cyberbullying, exposição excessiva de dados pessoais, dependência tecnológica, discursos de ódio, golpes e esquemas fraudulentos. A cidadania digital ajuda-nos a navegar este cenário com maior consciência e proteção, tornando-nos utilizadores mais autónomos e resilientes.
As três grandes dimensões da cidadania digital
O documento do Conselho da Europa propõe três grandes áreas para entender a cidadania digital: Estar Online, Bem-estar Online e Direitos Online. Cada uma delas engloba competências essenciais para uma vida digital saudável.
1. Estar Online: participar, criar e pensar criticamente
Esta dimensão reúne tudo o que precisamos para usar a tecnologia de forma eficaz, criativa e informada.
a) Acesso e Inclusão
Não basta ter internet: é preciso garantir que todos conseguem participar plenamente, independentemente da idade, género, cultura ou capacidades físicas. Inclusão significa criar ambientes digitais onde ninguém fica para trás, e isso depende de escolhas que fazemos todos os dias, como apoiar colegas que têm mais dificuldades tecnológicas ou promover espaços de respeito e diversidade.
b) Aprendizagem e Criatividade
A tecnologia é uma ferramenta poderosa para aprender e criar. Podemos fazer trabalhos escolares, explorar museus online, editar vídeos, escrever blogs ou praticar programação. Mas é importante também compreender o conceito de direito de autor: sempre que publicamos algo na internet, esse conteúdo tem um dono, e devemos respeitar o trabalho dos outros, assim como queremos que respeitem o nosso.
c) Literacia Mediática e Informacional
Num mundo cheio de informação, e também de desinformação, saber procurar, comparar e verificar fontes é essencial. Qualquer pessoa pode publicar conteúdos online, mas nem tudo é verdadeiro ou fiável. Uma das competências mais valiosas hoje é saber identificar notícias falsas, perceber como funcionam as pesquisas online e distinguir informação de publicidade.
2. Bem-estar Online: agir com ética, empatia e equilíbrio
A cidadania digital não é apenas saber usar tecnologia, é saber usá-la de forma humana, equilibrada e responsável.
a) Ética e Empatia
A internet também é feita de pessoas. Cada comentário, mensagem ou partilha afeta alguém. Por isso, empatia, a capacidade de compreender e respeitar as emoções dos outros, é fundamental. Conversas sobre bullying, discursos de ódio e respeito pela diversidade são essenciais para garantir interações positivas, tanto online como offline.
b) Saúde e Bem-estar
Passamos muitas horas por dia online, e isso tem impacto na nossa saúde física e mental. Manter uma postura correta, fazer pausas, equilibrar o tempo de ecrã com atividades ao ar livre e estar atento ao modo como nos sentimos são práticas de autocuidado digital. A tecnologia deve acrescentar valor à nossa vida, e não dominar o nosso tempo ou autoestima.
c) ePresença e Comunicação
A forma como nos apresentamos online, o que publicamos, como comunicamos, que imagem transmitimos, faz parte da nossa pegada digital, uma marca que deixamos na internet. É importante perceber que aquilo que hoje publicamos pode influenciar oportunidades futuras. Por isso, comunicar com respeito e gerir cuidadosamente a nossa presença digital é essencial.
3. Direitos Online: proteger-nos e participar
Tal como no mundo físico, também no mundo digital temos direitos que devem ser defendidos.
a) Participação Ativa
Ser cidadão digital é também participar na vida comunitária: dar opinião, votar em iniciativas escolares ou locais, organizar projetos, colaborar com outros. A participação fortalece a democracia e ajuda-nos a construir um ambiente digital mais justo e solidário.
b) Direitos e Responsabilidades
Ao usar plataformas digitais, aceitamos regras e termos de utilização, às vezes sem os ler. Mas compreender estes direitos e deveres é fundamental para garantir que as nossas escolhas são conscientes e éticas.
c) Privacidade e Segurança
Proteger dados pessoais, nomes, fotografias, moradas, palavras-passe, é crucial. Saber criar palavras-passe seguras, gerir cookies, evitar golpes (phishing) e reconhecer comportamentos suspeitos é parte essencial da nossa segurança digital.
d) Consumo Responsável
Compramos cada vez mais online, mas isso implica compreender direitos do consumidor, ler condições de venda e refletir sobre práticas de consumo sustentáveis. A cidadania digital também envolve perceber como somos influenciados por anúncios e como as nossas escolhas têm impacto económico e ambiental.
Cidadania digital é para todos – começa agora
A cidadania digital não é apenas para crianças ou estudantes: é para todos. Seja em casa, no trabalho, nas redes sociais, cada pessoa pode contribuir para um mundo digital mais seguro, justo e participativo. Ao aprendermos a usar a tecnologia criticamente, protegermos os nossos direitos, respeitarmos os outros e participarmos ativamente, reforçamos a democracia e fortalecemos os valores humanos.
Podemos começar com pequenos passos: verificar fontes, pensar antes de publicar, proteger a privacidade, dialogar com empatia, equilibrar tempo online e offline, e incentivar ambientes inclusivos. Cada gesto conta.
Conselho da Europa (2023). Easy steps to help learners become Digital Citizens. Estrasburgo, Conselho da Europa. Disponível em: https://edoc.coe.int/en/education/12304-easy-steps-to-help-learners-become-digital-citizens.html
Sobre a Autora
Eduarda Ferreira
Psicóloga Educacional - CICS.NOVA.
Interesses de investigação: web geoespacial, TIC na educação, inclusão digital, sexualidades e igualdade de género.
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