Cidadania Digital: o que é e por que importa

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Eduarda Ferreira

Mesmo quando estamos offline, continuamos rodeados de tecnologia que influencia as nossas decisões, as nossas relações e a forma como aprendemos e trabalhamos. Por isso, falar de cidadania digital é uma necessidade para qualquer pessoa que use a internet – e hoje isso significa praticamente todos nós.

O que é ser um cidadão no mundo digital?

Ser cidadão significa ter direitos, deveres e participar ativamente na sociedade. No universo digital, esta lógica é a mesma: continuamos a ter direitos que devem ser respeitados e responsabilidades que devemos assumir. Cidadania digital é, portanto, a capacidade de usar a tecnologia de forma responsável, crítica, criativa e segura, contribuindo para que os espaços online sejam mais inclusivos, respeitadores e positivos.

Uma pessoa que exerce plenamente a sua cidadania digital:

  • Compreende o impacto da tecnologia no seu dia a dia;
  • Sabe como se comportar online;
  • Respeita as opiniões e os direitos dos outros;
  • Consegue distinguir informação fiável de conteúdos enganadores;
  • Protege a sua privacidade e a dos demais;
  • Participa ativamente em comunidades digitais de forma construtiva.

E, acima de tudo, é um aprendiz ao longo da vida, porque o mundo digital muda constantemente e obriga-nos a atualizar conhecimentos e atitudes.

Por que precisamos de cidadania digital?

Antes, muitas das nossas atividades, aprender, brincar, trabalhar, conversar, participar na comunidade, aconteciam exclusivamente em ambientes físicos: em casa, na escola, no bairro. Hoje, tudo isto também acontece online. Crianças e jovens comunicam, jogam, aprendem e constroem relações através de plataformas digitais. Adultos fazem compras, estudam, participam em debates e organizam a sua vida através de dispositivos ligados à internet.

No entanto, todas estas oportunidades também trazem riscos: desinformação, cyberbullying, exposição excessiva de dados pessoais, dependência tecnológica, discursos de ódio, golpes e esquemas fraudulentos. A cidadania digital ajuda-nos a navegar este cenário com maior consciência e proteção, tornando-nos utilizadores mais autónomos e resilientes.

As três grandes dimensões da cidadania digital

O documento do Conselho da Europa propõe três grandes áreas para entender a cidadania digital: Estar Online, Bem-estar Online e Direitos Online. Cada uma delas engloba competências essenciais para uma vida digital saudável.

1. Estar Online: participar, criar e pensar criticamente

Esta dimensão reúne tudo o que precisamos para usar a tecnologia de forma eficaz, criativa e informada.

a) Acesso e Inclusão

Não basta ter internet: é preciso garantir que todos conseguem participar plenamente, independentemente da idade, género, cultura ou capacidades físicas. Inclusão significa criar ambientes digitais onde ninguém fica para trás, e isso depende de escolhas que fazemos todos os dias, como apoiar colegas que têm mais dificuldades tecnológicas ou promover espaços de respeito e diversidade.

b) Aprendizagem e Criatividade

A tecnologia é uma ferramenta poderosa para aprender e criar. Podemos fazer trabalhos escolares, explorar museus online, editar vídeos, escrever blogs ou praticar programação. Mas é importante também compreender o conceito de direito de autor: sempre que publicamos algo na internet, esse conteúdo tem um dono, e devemos respeitar o trabalho dos outros, assim como queremos que respeitem o nosso.

c) Literacia Mediática e Informacional

Num mundo cheio de informação, e também de desinformação, saber procurar, comparar e verificar fontes é essencial. Qualquer pessoa pode publicar conteúdos online, mas nem tudo é verdadeiro ou fiável. Uma das competências mais valiosas hoje é saber identificar notícias falsas, perceber como funcionam as pesquisas online e distinguir informação de publicidade.

2. Bem-estar Online: agir com ética, empatia e equilíbrio

A cidadania digital não é apenas saber usar tecnologia, é saber usá-la de forma humana, equilibrada e responsável.

a) Ética e Empatia

A internet também é feita de pessoas. Cada comentário, mensagem ou partilha afeta alguém. Por isso, empatia, a capacidade de compreender e respeitar as emoções dos outros, é fundamental. Conversas sobre bullying, discursos de ódio e respeito pela diversidade são essenciais para garantir interações positivas, tanto online como offline.

b) Saúde e Bem-estar

Passamos muitas horas por dia online, e isso tem impacto na nossa saúde física e mental. Manter uma postura correta, fazer pausas, equilibrar o tempo de ecrã com atividades ao ar livre e estar atento ao modo como nos sentimos são práticas de autocuidado digital. A tecnologia deve acrescentar valor à nossa vida, e não dominar o nosso tempo ou autoestima.

c) ePresença e Comunicação

A forma como nos apresentamos online, o que publicamos, como comunicamos, que imagem transmitimos, faz parte da nossa pegada digital, uma marca que deixamos na internet. É importante perceber que aquilo que hoje publicamos pode influenciar oportunidades futuras. Por isso, comunicar com respeito e gerir cuidadosamente a nossa presença digital é essencial.

3. Direitos Online: proteger-nos e participar

Tal como no mundo físico, também no mundo digital temos direitos que devem ser defendidos.

a) Participação Ativa

Ser cidadão digital é também participar na vida comunitária: dar opinião, votar em iniciativas escolares ou locais, organizar projetos, colaborar com outros. A participação fortalece a democracia e ajuda-nos a construir um ambiente digital mais justo e solidário.

b) Direitos e Responsabilidades

Ao usar plataformas digitais, aceitamos regras e termos de utilização, às vezes sem os ler. Mas compreender estes direitos e deveres é fundamental para garantir que as nossas escolhas são conscientes e éticas.

c) Privacidade e Segurança

Proteger dados pessoais, nomes, fotografias, moradas, palavras-passe, é crucial. Saber criar palavras-passe seguras, gerir cookies, evitar golpes (phishing) e reconhecer comportamentos suspeitos é parte essencial da nossa segurança digital.

d) Consumo Responsável

Compramos cada vez mais online, mas isso implica compreender direitos do consumidor, ler condições de venda e refletir sobre práticas de consumo sustentáveis. A cidadania digital também envolve perceber como somos influenciados por anúncios e como as nossas escolhas têm impacto económico e ambiental.

Cidadania digital é para todos – começa agora

A cidadania digital não é apenas para crianças ou estudantes: é para todos. Seja em casa, no trabalho, nas redes sociais, cada pessoa pode contribuir para um mundo digital mais seguro, justo e participativo. Ao aprendermos a usar a tecnologia criticamente, protegermos os nossos direitos, respeitarmos os outros e participarmos ativamente, reforçamos a democracia e fortalecemos os valores humanos.

Podemos começar com pequenos passos: verificar fontes, pensar antes de publicar, proteger a privacidade, dialogar com empatia, equilibrar tempo online e offline, e incentivar ambientes inclusivos. Cada gesto conta.

Conselho da Europa (2023). Easy steps to help learners become Digital Citizens. Estrasburgo, Conselho da Europa. Disponível em: https://edoc.coe.int/en/education/12304-easy-steps-to-help-learners-become-digital-citizens.html

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Sobre a Autora

Eduarda Ferreira

Psicóloga Educacional - CICS.NOVA.

Interesses de investigação: web geoespacial, TIC na educação, inclusão digital, sexualidades e igualdade de género.